terça-feira, 4 de abril de 2006

"Os olhos ela puxou à mãe", minha família me dizia. "Essa cor mel, meio verde quando fica brava ou apaixonada, é bem a mãe dela". "Não esqueçam do cabelo também. Essa escuridão. Antes da mãe dela pintar de vermelho era assim: escuro como breu!", a tia-avó mais velha insistia. "E o narizinho arrebitado!!! Na tua idade, tua mãe foi Miss! Miss! Botava qualquer uma no chinelo, só com aqueles olhos mel, aquele cabelo escuro e ondulado e o narizinho. Todos como os teus". "Olhos cor de lodo", eu corrigia mentalmente. "Mas não vamos esquecer da boca do pai. Essa lindeza de sorriso. Se não fosse por ele, ela não tinha essa boca, meu Deus!" E eu sorria amarelo, com a vontade de não-sorrir. "Mas as covinhas são da mãe. União perfeita!" Meu avô olhava de longe. Não se metia na descrição da neta. Não se metia na indiscrição das irmãs. "A cor da pele! Esse moreno que ninguém sabe de que parte da família veio. Só ela e a mãe têm. O irmão nem tanto e a outra é mais branquinha".

Meu avô levantou do canto onde estava, passou a mão nos meus cabelos e sussurou no meu ouvido: "Só não casa, morena. Não casa que homem só dá problema!"

2 comentários:

Dri disse...

Na verdade descrições não são meu forte, mas a discrição insiste em permanecer em mim. Acho que é por isso que concordo com o seu avó, no stress, no problem.

Escritora disse...

Eu gosto do seu avô!
=]