terça-feira, 12 de agosto de 2008

minicontodesabafo: a professorinha

- mas, professora, a senhora parece tão jovem... - disse o aluno um pouco preocupado.
- pois é...
- que idade tem? - indagou outro.
- tecnicamente ou na prática? - a professora perguntou, com os olhos firmes.
- como assim?
- bom, tecnicamente eu tenho menos 150 anos.
silêncio com doses cavalares de dúvida e incrença.
- é... eu vim do futuro, na verdade. vou nascer às 4h da manhã do dia 5 de novembro de 2158.
- co- co- como assim?
- na prática, eu devo estar com meus 2523... faço 2524 em novembro.
a professora disse assim. sem nem pestanejar!
- entenderam a dirferença? tecnicamente, eu ainda não nasci. na prática, estou na metade do meu terceiro milênio.
ela sorri. e o sorriso da professora era sincero. assustadoramente sincero.
- ma- ma- mas... a enhora não pode ser do futuro... isso é impossível! - um dos alunos desesperados disse.
- e, se fosse possível, com 2500 anos-
(interrompido)
- 2523, por favor!
- com 2523 anos, a senhora deveria ser pó, um cadáver enterrado... mortinha da silva!
- é! - fez-se o coro - MORTINHA DA SILVA!
- ah! mas no futuro não se morre mais de velhice... não tem essa de chegar a uma idade e ficar enrrugadinho, doente e morrer.
silêncio mais incrédulo ainda.
- em algum momento nesses 150 anos, não me lembro bem quando, porque nunca fui muito boa com história... mas, enfim, em algum momento nesses 150 anos, procurando a cura pra uma doença neurológica, mal de alzeimer, creio eu, eles descobriram uma forma de regenerar todas as células. inclusive, os neurônios. ninguém mais morre de velho, ninguém mais morre senil... foi em 2110, acho eu. nem era nascida! (ri)
o silêncio inrédulo fica insuportável.
- claro, tem um jeito de morrer - afirma a professorinha - mas só se alguém te matar. como não tem mais crimes assim, todo mundo vive feliz.
- professora, do que tu tá falando???
- ué, de que ninguém morre mais no futuro. e todo mundo é sempre jovem. é como aquele filme supervelho... Highlander, acho eu. só que sem os caras maus e sem aquela coisa de arrancar a cabeça, sabem?
- não, não... - disse um.
- ah! esse filme é bem velho. nem é da nossa época! - completou outro.